segunda-feira, 13 de abril de 2009

DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR- Sejamos Páscoa para a multidão que nos espera!

Chegámos à Páscoa, amados irmãos e irmãs. E, concluindo estes dias absolutos, um sentimento devemos ter e uma pergunta devemos fazer-nos. O sentimento só pode ser de acção de graças. E a pergunta é esta: - Como ficámos nós, tendo ouvido o que ouvimos e celebrado o que celebrámos?Acção de graças, antes, durante e depois de tudo, em perpétua Eucaristia, que as graças de Deus só eternamente se agradecem. Entre tantos acontecimentos e perplexidades que nos tocam de perto ou de longe e nos deixam, como pessoas deste tempo e deste mundo, entre a expectativa e o desengano, as perspectivas ou a falta delas; entre realidades de variados âmbitos que nos poderiam deixar interrogativos ou inquietos: fomos vivendo em três intensíssimos dias, espiritualmente ligados a uma multidão de cristãos que o fizeram connosco nas mais diversas situações por esse mundo além, o que Cristo nos ofereceu com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, de há dois milénios para sempre.E o que Cristo nos deu, nas palavras que guardámos e nos gestos que liturgicamente reproduzimos, resume-se a uma realidade total: - Ele mesmo! Sim, amados irmãos e irmãs, na paixão, entre tanta atrocidade que sofreu, foi Ele próprio que se ofereceu, da Ceia à Cruz. Mesmo no sepulcro, era a sua oferta também, qual semente lançada à terra para germinar em vida, a nossa vida. Porque a sua vida ressuscitada é-nos oferecida agora, começando em cada baptizado a última novidade do mundo.Precisamente a que celebramos nesta manhã pascal que, ao contrário das habituais, não tem amanhã: é já o oitavo dia, o “Domingo que não tem ocaso”. Por isso nos atrai tanto, como só a realidade total efectivamente atrai.Porque o sabemos, agradecemos. Porque muitos ainda não o sabem – ou já “esqueceram”, porque realmente o não souberam – faremos da nossa vida um “evangelho”, sentindo, falando e agindo unicamente a partir da ressurreição de Cristo. E não nos pareça demasiado, porque é apenas o começo. Indispensável e urgente, como boa nova para a esperança do mundo, onde esteja gasto e sofrido.
Retomemos as palavras ouvidas, para nos retomarmos precisamente a partir delas. Leiamo-las devagar, para que cada uma delas se inscreva nos corações, tanto ou mais do que a escrita do Sinai se gravou na antiga pedra.Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro… Tudo aconteceu connosco: a urgência de Madalena, antes de mais, pois quem mais ama é quem mais vê e mais depressa. Deixara ela a Magdala onde vivia, para seguir e servir o Rabi da Galileia, que nunca mais deixou. Até à cruz e agora ao sepulcro, onde julgava encontrar o seu cadáver. Por que o julgava, ainda estava “às escuras”, que assim estaríamos nós, se não soubéssemos da ressurreição acontecida.Nem a pedra retirada lhe deu a compreensão imediata do que sucedera, tão inaudito era de facto. Correu a chamar Pedro e o outro discípulo, julgando que lhe tinham levado o Senhor… Correram estes ao sepulcro e viram apenas as ligaduras e o sudário, tudo dum modo que dava que pensar… Viu-o especialmente “o discípulo”, que viu e acreditou. Este discípulo, que a tradição identifica como João, não é nomeado. Diz-se apenas que era “o discípulo predilecto de Jesus”. Notável referência é esta, amados irmãos, porque exactamente assim nos inclui a nós. É a predilecção do Senhor que nos evidencia a sua presença, tanto mais quanto lhe correspondamos em constante procura e profunda devoção. “Vemos”, realmente vemos, os sinais da sua vida ressuscitada, como o discípulo viu as ligaduras no chão; mas o coração alonga-nos infinitamente a vista e evidencia-nos a sua presença total e arrebatadora.É outra luz, luz que nos traz ainda mais vida do que o sol a traz à terra quando desponta. Peçamo-la de novo. Com a oração da Missa: “Concedei-nos Senhor do universo que, celebrando a solenidade da ressurreição de Cristo, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida”.
Se quiséssemos resumir agora, para projectar na vida, o que acabámos de ouvir, talvez o pudéssemos fazer nestes termos: é no amor que vemos Cristo e Cristo faz-nos testemunhas do seu amor. Não nos admirará esta asserção, pois sabemos por experiência própria que só conhecemos realmente aqueles que amamos. Sem disponibilidade e benevolência em relação aos outros, nunca os compreenderemos bem, nem em si mesmos nem na intenção do que digam ou façam. Cristo, que inteiramente nos ama, numa predilecção onde cabemos um por um, conhece-nos absolutamente. A Cristo conhecê-lo-emos mais e mais, na medida em que guardarmos a sua palavra e retivermos os seus gestos, na leitura, na oração e na vida sacramental. De tudo ressaltará uma presença, em tudo se experimentará vida nova. Tanto mais que, como aconteceu com Madalena, Pedro e o discípulo, também acontecerá connosco em Igreja e na proximidade dos outros ou em relação aos outros. A vida ressuscitada de Cristo alarga e oferece em toda a parte a comunhão plena com Deus e com os outros, e com Deus “através” dos outros. É quando estamos reunidos em nome de Cristo que mais experimentamos a sua presença no meio de nós. Foi esta a sua promessa, por ela somos Igreja. Também é no serviço aos outros que o servimos a ele, pois se identifica com a cruz inteira do mundo, que fez sua, para dela e da morte ressuscitar, ficando ainda mais connosco.Podemos e devemos concluir que ver as coisas a esta luz faz-nos peregrinos da ressurreição no mundo, em caridade ressuscitadora.
Abre-se agora o tempo pascal, que devemos viver com particular empenho nas actuais circunstâncias. O Evangelho falava-nos da perplexidade dos que “ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos”. Dois milénios depois, é a experiência certa da ressurreição de Cristo que nos faz entender as Escrituras, precisamente a partir dela, e nos faz perspectivar a vida a partir da vitória de Cristo sobre a morte.Morte é a não vida, sendo seus sinais, tristíssimos sinais, todos os actos ou omissões, pessoais e colectivos que eliminem ou diminuam a existência humana e a harmonia do mundo. Vão do desrespeito pela vida, quando esta não é considerada na sua inteireza, da concepção à morte natural, ao desprezo pela dignidade de cada um, que só em condições normais de educação, saúde, trabalho, justiça e participação cultural e cívica se pode realizar, do plano local ao internacional.Vida é não morte, ou melhor, é cumprimento de todos num saudável colectivo que tem em Deus uno e trino a sua origem e o seu destino feliz.“Tempo pascal” são dias preenchidos de caridade, amor novo que o Espírito de Cristo derrama em nossos corações, como primeiro dom do Ressuscitado: não temos outro sinal nem certificação de que as nossas vidas são pascais também e por isso mesmo renovadas e livres. Mas este mesmo nos basta, para abrirmos em Páscoa todo o tempo que se segue e florirmos em esperança cada local e circunstância que integremos.Nestes dias sairá o “compasso”, levando por ruas e casas o anúncio da ressurreição de Cristo, para que aí mesmo ressuscitem as vidas. E é urgente que, nos tempos que correm, esse anúncio leve esperança e coragem a quantos estão tristes ou deprimidos pelas mais diversas razões, da doença ao desemprego, da solidão ao cansaço. Como urgente é também que, recolhido o compasso, ele continue na vida e no testemunho de todos os discípulos do Ressuscitado, pois não lhes faltará vida para partilharem nem luz para iluminarem quem dela careça. E o que agora temos “em vez” dos outros é exactamente o que temos “para” os outros, pois graças são encargos. Tempo pascal é geralmente tempo de “comunhões”, primeiras ou outras, onde a vida ressuscitada de Cristo nos é sacramentalmente, realmente, oferecida. Pois que sejam fervorosas, para serem socialmente consequentes, em autêntica “prática”.O tempo pascal conclui-se em Pentecostes, irradiação universal do Espírito de Cristo. Uma antiga tradição fazia deste tempo ocasião de mais fraternidade e partilha. Nalgumas terras portuguesas ou da nossa diáspora, mantêm-se ou retomam-se, da Páscoa ao Pentecostes, festejos tradicionais ou renovados, onde se reconciliam e aproximam pessoas, se partilham refeições e se aclama o Espírito. E muito bom será se, do mesmo modo que a Quaresma está plena de sugestivos motivos de conversão e penitência ligados à Paixão de Cristo, tão compartilhada por sua Mãe Santíssima, nós conseguirmos preencher também os cinquenta dias pascais de motivos próprios de caridade e paz, no Espírito do Ressuscitado. Há aqui algo a recriar, também como Nova Evangelização.Na verdade, caríssimos irmãos e irmãs, tudo quanto celebrámos neste Sagrado Tríduo é demasiado importante e necessário a todos, para que fique apenas na recordação dalguns: - Sejamos Páscoa para a multidão que nos espera!



Sé do Porto, 12 de Abril de 2009+ Manuel Clemente

DIZ A SAGRADA ESCRITURA:

"Celebramos a festa, não com fermento velho. nem com fermento de malícia e pervesidade, mas cm os pães ázimos da pureza da verdade"

(Cor. 5,8)

PÁSCOA, FESTA DA VIDA

A Páscoa é a festa mais antiga celebrada desde tempos remotos. Era a Festa da Primavera: depois do inverno, da morte aparente da natureza, os pastores observaram o triunfo da vida nos novos rebentos, nas flores, na luz, e gratos, ofereciam aos deuses as primícias dos rebanhos, agora com pastagens abundantes.
Os judeus não olharão tanto para a natureza, mas mais para o íntimo, para a sua passagem de povo escravizado a livre, e pressentem que a celebração da festa resume a festa da humanidade, da criação e da aliança de Deus com os homens.

Esta história, para os cristãos, encontra a sua realização total na ressurreição de Jesus, na vitória da vida sobre a morte. Principio da vida nova que Ele nos oferece.

sábado, 11 de abril de 2009

SEXTA-FEIRA SANTA

Meditação do irmão Alois
A cruz não é a última palavra
A cruz de Taizé
No Natal celebrámos um Deus que está perto de nós, que se fez homem por amor e partilha a nossa existência. Hoje recordamo-nos de que Jesus vai até ao extremo neste caminho: ele é traído, preso, condenado, torturado e morre como o último dos últimos.
Jesus põe-se do lado dos fracos e dos pobres. À primeira vista é um escândalo ou uma pura loucura. Dando a sua vida na cruz, ele escolhe o último lugar e aceita a vergonha do fracasso. Ele assume sobre si próprio o peso do sofrimento, do ódio e da morte, para nos libertar desse mesmo peso. Desta forma, ele inscreve o sim de Deus no mais profundo da condição humana. Mesmo maltratado pelos homens, Jesus não retira esse sim ao ser humano. É a sua missão: ele realiza-a e paga o seu preço.
Na cruz, Jesus abre os braços para reunir toda a humanidade e toda a criação no amor de Deus. Ele é a manifestação da bondade de Deus por cada ser humano. Para reconciliar a humanidade com Deus, «Jesus esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens… tornando-se obediente até à morte e morte de cruz» (Filipenses 2,5-11).
Jesus inaugura assim a nova Aliança, uma nova comunhão com Deus. Trata-se de uma partilha: Jesus assume sobre si próprio aquilo que separa a humanidade de Deus, assumindo o destino de cada pessoa; e, em troca, comunica-lhes a sua vida. A descida de Deus em Cristo através da encarnação e da humilhação extrema da cruz serão, para sempre, fonte de espanto e de vida nova. Já no século II, Ireneu de Lyon chegou ao ponto de dizer: «Por causa do seu amor infinito, Cristo tornou-se naquilo que nós somos, para nos tornar plenamente naquilo que ele é.»
No momento em que leva aos ombros toda a humanidde, Jesus não esquece a dor daqueles que lhe são muito próximos. Vê ao seu lado Maria, a sua mãe, e pede a João, o discípulo que ama especialmente, para tomar conta dela a partir daquele momento (João 19,26-27). Assim, muito humildemente, debaixo da cruz nasce a Igreja.
Jesus também vê ao seu redor aqueles que o perseguem. Quando chega esse momento decisivo, pede a Deus para lhes dar o perdão: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34). O perdão de Deus é sem limites e permanecerá para sempre uma fonte a jorrar.
Na cruz, Cristo partilha tudo connosco, inclusivamente o silêncio de Deus: a única resposta ao seu próprio sofrimento é um grande silêncio. Jesus faz a experiência do que significa sentirmo-nos longe de Deus, abandonados. No entanto, no coração desse abandono, utiliza as palavras do salmista e clama com voz forte: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mateus 27,46). Desta forma, até este abandono é inserido no diálogo de amor entre Jesus e o seu Pai.
E o grito angustiado de Jesus transforma-se. Há apenas uma realidade que ninguém lhe pode tirar: é a confiança de que é amado por Deus e de que, dando a sua vida, ele transmite esse amor. Os seus lábios podem então murmurar: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46). E o seu último sopro, cheio de uma dor imensa, é ao mesmo tempo a efusão do amor de Deus.
O apóstolo Pedro amava Jesus, mas teve dificuldades em aceitar um messias pobre. Ser discípulo de um messias humilhado tornou-se de tal forma insuportável para ele que, depois de Jesus ter sido preso, acabou por negá-lo. Então Jesus, nas mãos dos soldados, olha para ele com amor e mostra-lhe que não lhe vai retirar a sua confiança (Lucas 22,61). Pelo contrário, vai confiar-lhe depois a sua pequena Igreja nascente. E Pedro poderá testemunhar, com os outros discípulos, que a cruz não foi a última palavra.
A cruz ultrapassa o nosso entendimento, mas ao celebrar este acontecimento compreendemos cada vez melhor a esperança extraordinária à qual ele nos abre. Essa esperança não é um optimismo vago. Pôr a nossa confiança em Cristo, morto e ressuscitado, abre os nossos corações para enfrentarmos as situações difíceis com lucidez. Numa comunhão pessoal com ele, Cristo comunica-nos um novo impulso.
Penso num jovem que encontro por vezes em Taizé. Ele tem uma doença incurável que vai progredindo com o tempo e sofre terrivelmente. Já perdeu muitas possibilidades que lhe teriam proporcionado uma vida feliz. E, no entanto, o seu olhar e todo o seu comportamento permanecem surpreendentemente abertos. Ele disse-me um dia: «Agora sei o que significa a confiança. Antes eu não precisava dela, mas agora preciso.» Este jovem transmite como que um reflexo, muito humilde mas real, do mistério da cruz. Nem ele pode imaginar a esperança que comunica a muitas pessoas, através da sua atitude.
Em Taizé, não apenas na Sexta-feira Santa mas em todas as sextas-feiras do ano, no final da oração da noite pomos no chão o ícone da cruz, cuja imagem aqui vem reproduzida. Todos os que o desejam podem aproximar-se dele, pôr a sua testa no madeiro da cruz e, com esse gesto, confiar a Cristo os seus próprios fardos e os das pessoas que lhe são confiadas.
Esta oração de sexta-feira à noite permite unir à via sacra de Jesus todos os que carregam o peso de uma cruz nas suas vidas: os que sofrem na sua alma ou no seu corpo, os doentes, os que tiveram que deixar o seu país, as vítimas de todo o género de injustiças.
Deus compreende todas as línguas das nossas intercessões, o francês, o alemão, o inglês, o coreano, o swahili… Mas ele também compreende a linguagem do nosso corpo. Se não conseguimos formular uma oração com palavras, podemos expressar confiança quando nos aproximamos da cruz. Ousemos fazer este gesto de confiar tudo a Cristo, de lhe confiarmos nós próprios e os outros!
Podermo-nos reunir desta forma à volta da cruz, para que o mistério pascal se torne cada vez mais no mistério fundamental da nossa vida, é algo de muito precioso. E Cristo toma sobre si próprio aquilo que é pesado para nós. Ele diz-nos no Evangelho: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que eu hei-de aliviar-vos» (Mateus 11,28).

quinta-feira, 9 de abril de 2009

MEDITAÇÃO DO IRMÃO ALOIS PRIOR DE TAIZÉ

Quinta-feira Santa: «Eu amei-vos»
Jesus lava os pés aos seus discípulos, pintura do irmão Sylvain, de Taizé
«Eu amei-vos»: estas palavras aparecem várias vezes no relato que o Evangelho de São João faz sobre a última noite de Jesus com os seus discípulos (João 13,34 e 15,9.12). Elas são como uma chave que nos dá o sentido de toda a narração.
Para evocar esta última noite, João conta como Jesus começou por lavar os pés dos seus discípulos. Os outros três Evangelhos recordam que nessa noite Jesus instituiu a Eucaristia. Sermos convidados a comemorar no mesmo dia a instituição da Eucaristia e o lava-pés é algo de muito feliz. Há uma íntima relação entre estes dois gestos: numa grande simplicidade, expressa-se todo o mistério da pessoa de Jesus. Por uma forma diferente de palavras, talvez melhor do que por palavras, Jesus mostra aquilo que está no centro do Evangelho: «Eu amei-vos até ao extremo.»
Tanto para a Eucaristia como para o lava-pés, o contrate entre o gesto e o conteúdo do seu significado é impressionante. É a pobreza e a simplicidade destes dois gestos que os tornam acessíveis a todos.
A Eucaristia resume toda a nossa fé, e só a podemos receber numa atitude de adoração, com um espírito de criança. É celebrando este mistério que o podemos compreender cada vez melhor.
«Isto é o meu Corpo»: estas palavras ultrapassam a nossa compreensão. Nunca ninguém tinha falado assim nem nunca ninguém voltará a falar assim. São palavras únicas em toda a história das religiões, que só encontram a sua justificação em si mesmas. Evitemos tentar encontrar uma explicação que feche o mistério apenas na nossa percepção. Isso foi uma tentação constantemente presente na Igreja.
Quando celebramos a Eucaristia, confiamos nas palavras de Cristo transmitidas pelos primeiros cristãos: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós.» A Igreja comunica, de geração em geração, o mistério que é actualizado pelo Espírito Santo.
Pela Eucaristia acolhemos na nossa vida Cristo, que foi até ao extremo do amor dando-se a si mesmo. E o dom da sua vida dá fruto nos seus discípulos. «Eu sou a videira; vós, os ramos… Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto» (João 15,5.8).
O lava-pés (do qual se apresenta aqui uma imagem muito simples) permite-nos contemplar a humildade de Jesus. Ela há-de espantar-nos sempre. Esta profunda humildade contém uma força de amor que renova toda a criação.
A Omnipotência de Deus é a do amor. Jesus «venceu o mundo» (João 16,33), não por ser mais forte que ele, mas porque introduziu na humanidade uma força diferente, absolutamente nova. Na noite de Quinta-feira Santa, cantamos durante muito tempo: «Ubi caritas et amor, Deus ibi est» (Onde houver caridade e amor, Deus está presente.)
O poder de Deus é uma energia de amor que age a partir de dentro e de forma mansa. Ele pode transformar as realidades mais duras, até mesmo a morte.
Será que estamos suficientemente conscientes de que ao celebrar a Eucaristia abrimos as portas a Cristo, para que a sua força de amor possa irrigar a nossa vida e a do mundo de hoje?
Será que estamos suficientemente conscientes de que através de um serviço tão simples quanto o lava-pés permitimos que a sua presença de Ressuscitado aja no mundo? O nosso empenho situa-se muitas vezes no âmbito do sinal, tal como, aliás, toda a vida de Jesus o foi. Talvez não façamos nada mais do que lavar os pés daqueles que nos são confiados. Mas os nossos actos de solidariedade são sinais que podem abrir uma passagem a Cristo e transfigurar a humanidade.
Será que estamos suficientemente conscientes de que a Eucaristia e o lava-pés são antecipações do Reino? Estas antecipações abrem ao coração do mundo um horizonte de esperança.
Em Taizé, recebemos a graça de fazer uma experiência muito forte da ligação entre a Eucaristia e o lava-pés através da vida de alguns de nós, que viveram oito anos num dos bairros de lata mais pobres de África. Foi em Mathare Valley, em Nairobi, no Quénia. O irmão Roger esteve lá durante algum tempo e depois um pequeno grupo de irmãos continuou. Sem grandes meios para modificar as inúmeras situações angustiantes, que sentido poderia aquela presença assumir?
Como permanecer lá? A exemplo das Irmãzinhas de Jesus, o irmão Roger perguntou ao Arcebispo se, na pobre barraca onde moravam, os irmãos poderiam guardar a presença eucarística. O Arcebispo deu o seu consentimento e foi ele próprio celebrar a Eucaristia no bairro de lata. Mais tarde, um dos irmãos escrevia: «Sem uma oração quotidiana em frente ao dom eucarístico eu não teria aguentado.» Era como uma fonte de vida que permitia aos irmãos continuar, com a sua presença simples, a «lavar os pés» das pessoas daquele bairro. E, pouco a pouco, foram nascendo iniciativas de solidariedade.
Claro que viver uma presença tão gratuita como a dos meus irmãos não dispensa os cristãos de se empenharem com vista a mudar as estruturas de injustiça. Mas se não vivermos perto dos mais pequenos não podemos reconhecer a sua dignidade nem permitir que ela seja respeitada. O apelo do Evangelho para lavarmos os pés aos pobres leva-nos a ultrapassar um espírito de assistência ou de paternalismo e a descobrir tudo o que eles têm para nos dar e que nós podemos receber deles.
Estarmos mais conscientes da relação entre Eucaristia e serviço: não haverá aí uma fonte de renovamento para a Igreja de hoje? Sim, a Eucaristia convida-nos ao lava-pés: ir, tal como Jesus, até ao extremo do amor, amar como ele amou.
O jornal francês «La Croix» pediu ao irmão Alois para escrever, ao longo do ano 2008-2009, uma meditação para cada grande celebração cristã.

Noite de Ceia de Senhor

Pelo seu gesto, que constitui um dos momentos importantes da Ceia Pascal Jesus manifesta-nos a sua realidade de "Servo" que atingirá o limite extremo da CruzCelebração da Ceia do Senhor e Lava Pés às 21h

Adoração do Santissimo das 22h às 24h

Paroquia de Santo Estêvão de Vilela

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Semana Santa



O papa Bento XVI presidirá todos os ritos da Semana Santa, entre eles os ofícios da Quinta-Feira Santa, quando lavará os pés de 12 homens, em lembrança ao ato de Jesus Cristo com os apóstolos, e destinará a coleta desse dia à pequena comunidade católica da Faixa de Gaza, informou hoje o Vaticano.
Este ano, as meditações da Via-Sacra da Sexta-Feira Santa, que ocorre no Coliseu de Roma, foram encarregadas ao indiano Thomas Menamparampil, arcebispo de Guwahati, no estado de Assam.
Em 5 de abril, no Domingo de Ramos, Bento XVI presidirá de manhã na praça de São Pedro do Vaticano a Procissão de Ramos, que inicia a Semana Santa.
Nesse mesmo dia, a Igreja celebra a Jornada Mundial da Juventude, que este ano tem como lema "Colocamos nossa esperança no Deus vivo".
Durante a mesma, os jovens de Sydney (Austrália) entregarão a Cruz desta jornada à juventude de Madrid, onde acontecerá, em 2011, o próximo encontro mundial da juventude católica.
Na Quinta-Feira Santa, dia 9 de abril, oficiará de manhã na Basílica de São Pedro a Missa Crismal. À tarde, irá à basílica de São João de Latrão para realizar os ofícios da Quinta-Feira Santa (a Última Ceia) e, durante a cerimônia, lavará os pés de 12 sacerdotes.
O dinheiro recolhido durante a cerimônia será destinado à pequena comunidade católica de Gaza.
Na Sexta-Feira Santa, dia 10 de abril, lembrará na Basílica de São Pedro a Paixão do Senhor e, no começo da noite, irá ao Coliseu de Roma para presidir a Via-Sacra.
No Sábado de Aleluia, dia 11 de abril, presidirá na Basílica de São Pedro a Vigília Pascal, considerada a "mãe de todas as vigílias", a noite na qual a Igreja permanece à espera da ressurreição do Senhor.
No dia 12 de abril, domingo, oficiará a Missa da Ressurreição, pronunciará a tradicional mensagem de Páscoa e oferecerá a bênção "Urbi et Orbi".